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Geodiversidade: a parte abiótica da natureza

Massada, Israel
O arquivo histórico do nosso planeta está na rocha que o forma, no registo geológico, nos minerais e nos fósseis. A biodiversidade é consequência e parte da evolução geológica, suporte da diversidade biológica e tal como esta é fundamental para existência de vida no planeta.
O termo geodiversidade é de utilização relativamente recente e não reúne consenso, nem quanto ao significado, nem quanto à origem. Pensa que a primeira vez em que foi usado terá sido na década de 90 do século XX por ocasião da Conferência de Malvern sobre Conservação Geológica e Paisagística, realizada em 1993, no Reino Unido para (Brilha, 2005) ou na Tasmânia (Austrália) para (Gray, 2004).Da mesma forma não se consegue encontrar uma definição única para a expressão geodivercidade, a questão tem sido debatida particularmente entre os especialistas da Europa e da Austrália, podendo ser entendida num sentido mais restrito como um conjunto de rochas, minerais e fósseis ou num sentido mais lato abrangendo os seres vivos.
A Royal Society for Nature Conservation, do reino Unido, definiu como : “A Geodiversidade consiste na variedade de ambientes geológicos, fenómenos e processos ativos que dão origem a paisagens, rochas, minerais, fósseis, solos e outros depósitos superficiais que especialmente são o suporte para a vida na Terra”, esta é assumida por Brilha no seu livro Património Geológico e Conservação, e bastante completa e abrangente em relação à definição de geodiversidade como:  “a variedade natural (diversidade) de características geológicas (rochas, minerais, fósseis), geomorfológicas (formas de relevo, processos) e do solo, ao mesmo tempo, que inclui as suas relações, propriedades, interpretações e sistemas” (Gray, 2004). Em suma, em qualquer dos casos, a geodiversidade centra-se na fração abiótica da natureza.

EUA Califórnia Parque Nacional de Yosemite
O valor da geodiversidade, como inicialmente referido, o registo geológico, mineral e fóssil que permite estudar e entender o percurso do planeta, constitui património geológico de interesse científico, cultural e educacional e que também pode ter valor, estético e cultural para turismo e lazer.
A geodiversidade determinou e condicionou a biodiversiade, no caso humano influenciou a forma como evoluiu a espécie e como se distribuiu na superfície do planeta. A geodiversidade influencia até a 
água que consumimos pois influencia o sabor, temperatura e grau de gasificação (Brilha, 2005).
Depois de atualizar a sua definição de geodiversidade, em 2013 Gray atribuiu à geodiversidade seis valores: valor intrínseco, valor cultural (lendas, arqueológico/histórico, espiritual, sentido de lugar); valor estético (paisagens locais, geoturismo, atividades de lazer, apreciação remota, atividades voluntárias, inspiração artística); valor económico (energia, minerais industriais, minerais metálicos, minerais para construção, pedras preciosas, fósseis, solo); valor funcional (plataformas, armazenamento e reciclagem, saúde, cemitério, controlo de poluição, química da água, funções do solo, funções do ecossistema, funções do geossistema) e valor científico (investigação geocientífica, história da investigação, monitorização ambiental, educação e formação) (Gray, 2013).
Por ser um termo geral que abrange geodiversidade tem designações mais específicas ao considerar os particulares tipos de elementos com excecional valor científico Por isso segundo Brilha (2014), é comum se referir a geomorfologia (formas terrestres), petrológicas (rochas), mineralógicas (minerais), paleontológicas (fósseis), estratigráficas (sequências sedimentares), estruturais (dobras, falhas e outros), hidrogeológicos (água) ou pedológicos (solos) como subtipos do património geológico. O termo Património Geológico só deve ser usado quando valor cientifico é reconhecido com precisão pelas autoridades nacionais e / ou internacionais.
Alto Atlas Marrocos
Mas existem outros elementos de geodiversidade que não tendo valor científico específico, são importantes recursos para educação, turismo ou identidade cultural de comunidades
Pelas suas características a geodiversidade é passível de ser inventariada. Em vários países da Europa já está a decorrer o processo e com o avanço dos trabalhos a formas de o fazer são aprimoradas com métodos de inventário e passíveis de serem adaptados a regiões com áreas diferentes e configurações geológicas diversificadas. Para uma inventariação bem-feita é importante a definição clara do objetivo do inventário para que se faça a melhor escolha do método de identificação precisa dos locais. A definição do valor dos sítios a serem inventariados é particularmente importante na escolha dos critérios que devem ser usados.
Inventariar para poder preservar a geodiversidade porque só se pode proteger o que conhecemos.
Referencias:
Brilha, J. (2005). Património Geologico e Geoconservação: A Conservação da Natureza na sua vestente geologica. (P. Editores, Ed.) Viseu.
Brilha, J. (2014, February 19 ). Inventory and Quantitative Assessment of Geosites. Geoheritage. doi:10.1007/s12371-014-0139-3
Ecosystems AND HUMAN WELL-BEING, Biodiversity Synthesis. (2005). World Resources Institute, Washington, DC. Library of Congress Cataloging-in-Publication data.
Gray, M. (2004). Geodiversity, valuing and conserving abiotic nature.
Gray, M. (2013). Geodiversity: valuing and conserving abiotic nature. . Chichester: John Wiley & Sons.

Comentários

  1. Cara Silvia.

    Tal como Brilha refere e insiste, inventariar é o principio da reunião estruturada da riqueza geologica de cada região, mas como fazer, independentemente desse conhecimento profundo reunido ou não, para pessoas e comunidades valorizarem esse patrimonio? Recordo muitas vezes um passeio de fim de semana que fiz a Soajo. Ao chegar antes da hora marcada com a dona da casa emque fiquei, decidi dar uma volta pela aldeia e parei no café da terra. Depois de analisada de baixo acima um dos senhores pergunta. Atão menina, que veio fazer a este fim de mundo? Ao que respondi que tinha ido caminhar apenas. Ao que o senhor replicou. Aqui não há nada para ver, só miséria e tristeza.
    Nunca me esquecerei das suas palavras, pois percebi que para estas pessoas compreenderem e valorizarem o patrimonio natural temos que quebrar esta barreira de dor.

    Abraço e parabéns pelo post.
    Sandra Rodrigues

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  2. Obrigado pelo comentário Sandra, ele alerta para uma questão que é a grande inimiga da preservação ambiental em Portugal e do Património, que eu considero ser falta de auto estima, que aleada à falta de informação, resulta em comentários como o que relatas.
    Há algum tempo na televisão, António Costa, dizia uma coisa que vejo muitas vezes repetida que é a ideia que para as pessoas para protegerem o ambiente tem que tirar lucro disso, não é uma ideia que me agrade, mas é uma realidade que vejo replicada, quando Brilha varias vezes diz “ e turismo” sabe o que diz.
    Já há alguns anos que não vou ao Soajo, mas pelo que tenho visto por outros lugares, talvez já não se lamentam tanto, talvez já algum “investidor” tenha comprado meia dúzia de casas, e tenham um alojamento local como em muitos casos que por ai tenho visto, e muito comercio bem arranjadinho com moveis Ikea.
    Penso que o problema é mais profundo e até cultural.

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  3. Olá,
    Gostei muito. De facto, para proteger há que conhecer :)
    Continuação de bom trabalho :)

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